Na noite do dia 1º de julho, a arena do 31º Festival Folclórico de Juruti foi tomada por um espetáculo de emoção, resistência e beleza ancestral. A terceira noite do FESTRIBAL 2025 teve como protagonista a Tribo Munduruku, que encantou o público ao apresentar o tema “Amazônia Eterna”, desenvolvido pelo apresentador Theo Neves.
Com uma proposta contundente, o enredo reforçou a importância vital da preservação da floresta amazônica — não apenas para os povos indígenas, mas para toda a humanidade. Em uma narrativa carregada de espiritualidade e apelo ecológico, o espetáculo convidou o público a lutar por uma Amazônia viva, ancestral e eterna.
A Lenda Amazônica retratou o universo dos pássaros da floresta, com destaque para o galo-da-serra, ave símbolo de resistência e beleza, que oferece seus frutos aos guerreiros indígenas. Na sequência, a apresentação da Porta-Estandarte Pérola Nayandra abrilhantou ainda mais o espetáculo.
Momentos de grande emoção marcaram a performance, com a exibição dos itens oficiais, conduzindo o público ao clamor pela proteção da floresta devastada. Um dos ápices foi o Ritual da Tucandeira, uma prática ancestral do povo Sateré-Mawé que simboliza o rito de passagem da infância à vida adulta — um momento de dor, coragem e tradição.
A noite ganhou ainda mais força com o Ritual Hixkaryana: o Povo Onça, em que a arena foi invadida pela simbologia da onça — espírito guardião da floresta, representando sabedoria, força e proteção. A apresentação trouxe um poderoso chamado à resistência, à memória e à espiritualidade amazônica.
Tribo Muirapinima celebra 30 anos de arte e cultura
Com raízes fincadas na memória da cidade de Juruti, a Tribo Muirapinima chega ao FESTRIBAL 2025 celebrando 30 anos de história, resistência e arte indígena. Surgida em 1995, a partir de um projeto pedagógico da Escola Deputado Américo Pereira Lima, liderado pelas professoras Aurecília Andrade e Sebastiana Picanço, a tribo nasceu como expressão artística e manifesto cultural em defesa dos povos originários da Amazônia.
Desde sua primeira apresentação, o povo Muirapinima tem valorizado o cotidiano indígena e exaltado suas tradições, mitologias e saberes. Em 2025, a tribo defende com orgulho o enredo “30 Anos de Arte e Cultura”, reafirmando seu compromisso com a memória, a espiritualidade, a liberdade e a luta pelos direitos dos povos indígenas.
Mitologia e arte indígena: saberes que ecoam no FESTRIBAL
A apresentação da Muirapinima trouxe elementos simbólicos como Wazaká – A Árvore da Vida, inspirada na mitologia do povo Macuxi. A história narra como os rios, florestas, animais e povos surgiram do tronco derrubado da árvore sagrada por Macunaíma, transformando a natureza em lar sagrado dos seres vivos. Para os Macuxi, o Monte Roraima é o tronco sagrado da Wazaká.
A representação artística reverenciou também os saberes ancestrais expressos em diferentes formas de arte indígena:
A cerâmica do povo Tapajó
O trançado das fibras vegetais do povo Wayana
A arte plumária do povo Guajajara
As pinturas corporais do povo Mura
Com coreografia assinada por Paulo Sousa e a participação especial da Comunidade Tradicional Paissandú do Lago Grande, a performance foi um verdadeiro mergulho nas tradições vivas da Amazônia.
No item 13, a apresentação dos pajés Mura mostrou a iniciação de guardiões espirituais da floresta, que através de rituais com ervas sagradas entram em transe para convocar espíritos protetores. Já no ritual indígena Duiaçudu (item 10), inspirado na cosmologia do povo Karajá, foi contada a história de Inã, guerreiro que lutou contra o Urubu Rei para libertar o sol, a lua e as estrelas — um mito de bravura e redenção que trouxe à arena uma forte energia simbólica.
Valorização da Comunidade Local e Desenvolvimento Sociocultural
O FESTRIBAL 2025 reafirma sua essência comunitária e o compromisso com o desenvolvimento sociocultural de Juruti e da região. Muito além de um espetáculo visual e simbólico, o festival é uma plataforma de valorização dos talentos locais, fortalecimento da identidade coletiva e geração de oportunidades reais para a população.
Cada tribo contou com, em média, cinco ensaios oficiais abertos ao público, que antecederam as apresentações principais. Esses momentos de preparação envolveram diretamente a comunidade, atraindo diariamente cerca de 150 pessoas e, nos fins de semana, mais de 400 espectadores, demonstrando o engajamento popular e o papel da cultura como elo de pertencimento.
Além da apresentação das tribos adultas, o festival também valoriza o surgimento das tribos mirins, espaços onde a tradição é passada entre gerações, fortalecendo os vínculos familiares, o sentido de coletividade e a educação cultural desde a infância. É nesse ambiente de celebração e transmissão de saberes que se constroem memórias afetivas e comunitárias.
Juruti se transforma durante o FESTRIBAL. Artistas, coreógrafos, costureiras, técnicos de som e luz, marceneiros, figurinistas e inúmeros outros profissionais são contratados localmente e nas cidades vizinhas, gerando impacto econômico e cultural que transcende as fronteiras do município. A festa também movimenta o comércio, o turismo e os serviços, com destaque para o setor de hospedagem e alimentação.
Outro destaque é o envolvimento direto de centenas de jovens, que encontram no festival uma oportunidade de expressar seus talentos e paixões, especialmente pela dança e pela arte cênica. Muitos deles são cooptados pelo amor à cultura e encontram no Festribal uma forma de pertencimento, afirmação identitária e crescimento pessoal.
Mais do que um evento cultural, o FESTRIBAL é uma celebração da comunidade de Juruti. Um povo que pulsa junto com a floresta, que resiste com arte e que transforma sua herança ancestral em um legado vivo para o presente e o futuro.
Programação e apoio institucional
O FESTRIBAL 2025 contou com o patrocínio master do Ministério do Turismo e patrocínio da Prefeitura de Juruti, que prepararam uma programação especial para celebrar mais uma edição da maior manifestação cultural da cidade. O evento também teve o patrocínio de Alcoa, Banpará e Equatorial Energia, além do apoio da MANÁ Produções e da Conecta Amazônia Telecom.
Fomentado por meio da Lei Rouanet – Incentivo a Projetos Culturais, o festival é realizado pela Prefeitura de Juruti, por meio da Secretaria Municipal de Cultura, Desporto e Turismo, em parceria com o Programa Semear – Incentivo à Cultura, da Fundação Cultural do Estado do Pará e do Governo do Pará, contando ainda com o apoio institucional de um Acordo de Cooperação entre o Ministério do Turismo, o Sesc/Senac e o Governo Federal.
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