Por: Fátima Guedes
Anuncia-se mais um 8 de março! Já se vão 51 anos! Após gritos universais por socorro; após muito sangue feminino derramado, silenciado e muita cobrança por Justiça, a ONU, para se “livrar” das intervenções mundiais, reconhece a data – Dia Internacional das Mulheres!
Os registros aqui compartilhados podem parecer redundantes, no entanto, é uma temática de caráter ininterrupto, evolutivo e sem perspectivas de controle ou justas intervenções por quem de Dever e do Direito. O volume de feminicídios é diário! Centenas de vidas são eliminadas, incluindo-se a Fêmea Universal – Mãe Terra.
Questionamo-nos o porquê de tanto silêncio, de tamanha indiferença e descaso às violências generalizadas por que passam muitas mulheres... Até quando e por que as mesmas vítimas continuam aceitando e submetendo-se a regras, a dogmas sistêmicos/patriarcais, religiosistas?... É pertinente afirmar: fundamentalismos políticos, religiosos vêm contaminando mentalidades feridas, carentes e sobrecarregadas de traumas até mesmo ignoradas pelas próprias vítimas.
Frei Betto* traz esclarecimentos e reafirma nosso clamor: “No renascimento, bispos e teólogos defenderam que a mulher é naturalmente inferior ao homem, destinada a obedecer-lhe. Por isso, não podia exercer funções de poder, como o sacerdócio. Questionado se o escravo liberto poderia ser sacerdote, Tomás de Aquino, meu confrade, respondeu que sim, pois o escravo é socialmente inferior, enquanto a mulher é naturalmente inferior”.
Comprova-se também o fundamentalismo em Efésios (5: 21- 33): “Esposas, sede submissas a vossos maridos, como convém ao Senhor. [...] ensinem as jovens a amar seus maridos e filhos, a serem modestas, castas, dedicadas aos afazeres domésticos, submissas a seus maridos, a fim de não ser blasfemada a palavra de Deus”.
Na controvérsia, perguntamos: até onde os escritores da Bíblia Cristã trouxeram anúncios originais do Líder Cristão – Jesus de Nazaré? Mergulhando profundamente nas Obras de Kalil Gibran e em Referências ímpares confirma-se acolhimento justo e amoroso do Mestre Jesus a desvalidos incluindo as mulheres. Testemunhos paralelos encontram-se em Mateus 21:31 “Em verdade vos digo que publicanos e meretrizes vos precedem no reino de Deus”.
Na mesma frequência, João 8:10-11 revela o perfil do Nazareno, quando livra a adúltera das pedradas e acusações daqueles que a exploravam e usavam seu corpo.
As citações pautadas escapuliram do controle autoral bíblico... Há muitos outros testemunhos do Mestre Palestino em defesa das mulheres, abafados no fundamentalismo patriarcal religioso.
Outro decreto trazido por Mateus comprova violências silenciosas e silenciadas na vida das mulheres: a “indissolubilidade do casamento” cristão que transforma duas pessoas em uma só, e a mulher é obrigada a sujeitar-se às regras machistas até que a morte, independentemente da situação e dos fatos, os separe.
Na verdade, um modelo totalmente contrário às antigas vivências e convivências comunitárias de perfil matrilinear, matrifocal e geocêntrico. Valérie Dupont esclarece: “Como não havia casamentos monogâmicos nem era possível conhecer a paternidade precisa, os nomes das crianças e os bens eram transmitidos pela linhagem materna. As crianças pertenciam à comunidade, assim como os depósitos de grãos e as provisões de comida; e as mulheres eram encarregadas da sua manutenção”.
O real-concreto está posto! A corrida gananciosa por domínio e poder sobre as antigas tradições, incluindo a espiritualidade, amordaçou as Deusas, apagando-As das memórias. Em contrapartida, o fundamentalismo impôs um deus machista, dominante, controlador sobre a vida em sua totalidade.
A reboque, as mulheres mantêm-se reféns da “indissolubilidade matrimonial”. A morte é a alternativa imposta.
É todo dia!
Falares de casa
FREI BETTO In: Mulheres no Brasil - Resistência, Lutas e Conquistas. Editora Universitária, João Pessoa, 2006.
FEMININO ATIVO, FEMININO SOLAR. Valérie Dupont. Biblioteca Rosa Cruz. 2003. PR
Maria de Fátima Guedes Araújo. Caboca das Terras Baixas da Amazônia. Educadora popular, pesquisadora de saberes popular/tradicionais da Amazônia. Licenciada em Letras pela UERJ (Projeto Rondon/1998). Com Especialização em Estudos Latino-americanos pela Escola Nacional Florestan Fernandes/ UFJF. Fundadora da Associação de Mulheres de Parintins, da Articulação Parintins Cidadã, da TEIA de Educação Ambiental e Interação em Agrofloresta. Militante da Marcha Mundial das Mulheres (MMM) e Articulação Nacional de Movimentos e Práticas de Educação Popular em Saúde (ANEPS). Autora das obras Ensaios de Rebeldia, Algemas Silenciadas, Vestígios de Curandage, Retalhos de Cidadania e do Dicionário Falares Cabocos (Organizadora).
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Opinião



