ARTIGO | Cabury, não era Cabo, natureza onde criamos


Por: Jenner Carneiro 


O termo Caburi (ou Cabury) é de origem tupi. Antes de apresentar as evidências linguísticas que sustentam essa afirmação, vale conhecer duas histórias populares que, ao longo do tempo, buscaram explicar a origem do topônimo. 

A primeira narra que, no período colonial, os habitantes Ancestrais se rebelaram contra o domínio português. Em resposta, o governo enviou uma expedição punitiva comandada por um oficial conhecido como "Cabo Ari". Durante o confronto, o cabo teria sido atingido por uma flecha envenenada e morrido horas depois. O episódio teria ficado conhecido como "o crime do lago do Cabo Ari", dando origem, por corruptela, ao nome Caburi. 

A segunda história, ambientada na metade do século XX, conta que moradores locais saíam em busca de cabos de telégrafo abandonados para retirar o metal de valor (cabos que vinham de Belém/Manaus). Em uma dessas expedições, um rapaz chamado Ariclenes, conhecido como Ari, confundiu uma raiz grossa com um cabo soterrado. Ao perceber o engano, um dos companheiros teria exclamado: "Ô, cabo Ari!". A expressão, repetida em tom de galhofa, teria originado o nome do lugar.

Apesar de criativas, essas narrativas não resistem à documentação histórica. O topônimo já aparece registrado no século XIX com a grafia Cabury. Em 1875, o Cônego Francisco Bernardino de Souza registrou em sua obra:
“... e o Jamunda recolhe-se a um leito pouco largo, entra ahi logo na margem direita o Cabury, o primeiro braço ou Paraná-miri que o Amazonas lhe envia." (SOUZA, 1875, p. 95, 2. parte).

Essa citação, além de confirmar a existência antiga do nome, demonstra a variação gráfica Cabury, comum na ortografia do período imperial.

Ele pode ser decomposto da seguinte forma:
Cabu (ou Kaburi) → elemento associado à ideia de beleza, aprazibilidade ou abundância natural;
-ry (ou -y) → sufixo tupi que significa "rio", "curso d'água" ou "paraná".

Assim, Caburi significa "Rio Bonito" ou "Rio de muitos peixes".Exploração etimológica do sufixo -ry / -yO sufixo -ry (ou -y) é um dos elementos mais antigos, estáveis e produtivos da língua tupi antiga. Eduardo de Almeida Navarro, em seu Dicionário de Tupi Antigo (2013, p. 712), registra e explica:
“-y (ou -ry após vogal): rio, curso d'água. Usado na formação de topônimos e hidrônimos."

Trata-se de um morfema básico do proto-tupi-guarani, presente em diversas línguas da família tupi. Ele refere-se especificamente à água corrente, ao rio como elemento dinâmico da paisagem.Exemplos comparativos ilustram bem o uso do sufixo:
Camboriú (Santa Catarina) → Cambu + ry = "Rio do Cambu" (Rio dos Robalos ou "Rio de muitos peixes");
Piraí (Rio de Janeiro) → Pira + y = "rio dos peixes";
Ipiranga → Y + piranga = "Rio Vermelho";
Itaquaraí → "rio das pedras brancas".
Essa mesma lógica se aplica a Caburi (Cabu + ry), reforçando sua consistência com o padrão tupi clássico.

Nos séculos XVI e XVII, a margem esquerda do rio Amazonas era habitada por diversos grupos de tronco tupi, entre eles os Yuboy, que viviam na região do rio Nhamundá, próximo ao atual Caburi. A presença desses povos e a difusão da Língua Geral Amazônica reforçam a raiz indígena do topônimo. 

Conhecer a etimologia de Caburi nos permite apreciar como os povos indígenas transformavam a observação atenta da natureza em nomes cheios de sensibilidade e precisão — um rico patrimônio linguístico e cultural da Amazônia brasileira.

Referências 

NAVARRO, Eduardo de Almeida. Dicionário de Tupi Antigo: a língua indígena clássica do Brasil. São Paulo: Global Editora, 2013. 
SOUZA, Francisco Bernardino de. Comissão do Madeira, Pará e Amazonas. Rio de Janeiro, 1875. 
TIBIRIÇÁ, Luiz Caldas. Dicionário de Topônimos Brasileiros de Origem Tupi. São Paulo: Traço Editora, 1985.

Jenner Carneiro | Professor Me. do Sistema Municipal e Estadual de Educação, ativista social e político, historiador autodidata e membro efetivo do Instituto Geográfico e Histórico de Parintins (IGHP)

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