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| Foto: Portal Marcos Santos, 02/2018 |
Por: Jenner Carneiro
A Serra de Parintins (hoje também chamada Serra da Valéria), na ilha de Tupinambarana, carrega um dos nomes indígenas mais marcantes do Baixo Amazonas. Esse topônimo remete diretamente aos Parintintina (ou Kagwahiva), povo do tronco Tupi conhecido por sua coragem e resistência.
A Primeira Referência Europeia
A primeira menção europeia a essa elevação ocorreu em 23 de junho de 1542, durante a histórica expedição de Francisco de Orellana. O frei Gaspar de Carvajal, cronista da viagem, registrou o avistamento de uma "Sierra Grand" (Serra Grande) logo após passarem pela região das aldeias densamente povoadas da "Província das Picotas". Embora o texto original não use o nome Parintins, a tradição historiográfica amazonense identifica essa serra com a atual Serra de Parintins/Serra da Valéria.
Marco nas Demarcações Coloniais
No século XVIII, a serra ganhou enorme importância estratégica.
Durante as demarcações de limites após o Tratado de Madri (1750), o governador Francisco Xavier de Mendonça Furtado utilizou a elevação — então conhecida pelos indígenas como Maracá-assú (ou Maracauaçu, "maracá grande") — como um dos principais marcos naturais na divisão entre o Grão-Pará e a Capitania de São José do Rio Negro. Sua silhueta visível do rio Amazonas servia como excelente referência para navegantes e cartógrafos.
Quem Eram os Parintintin (Kagwahiva)?
Os Parintintin autodenominam-se Kagwahiva ("nossa gente" ou "povo verdadeiro"). São falantes de língua Tupi e têm origem nas cabeceiras do rio Tapajós (região dos rios Arinos e Juruena, Mato Grosso). A partir do final do século XVIII, pressionados principalmente pelos Munduruku — seus grandes rivais —, migraram para oeste, chegando ao rio Madeira e realizando incursões até as margens do Amazonas. Sua reputação de guerreiros valentes e resistentes marcou profundamente o imaginário regional.
A Origem do Nome "Parintins"
O nome Parintintin (ou Parintins) não é autodenominação. Trata-se de um exônimo dado pelos Munduruku, seus inimigos históricos. Possivelmente derivado de "Pariua" ou forma semelhante, o termo carrega conotação ligada à bravura e à agressividade em combate — características que os Munduruku reconheciam nos Kagwahiva. Com o tempo, "Parintintin" foi sendo adaptado até chegar à forma atual que batizou tanto a serra quanto a cidade.
Do Topônimo Indígena à Cidade
O núcleo que viria a ser Parintins surgiu de antigos povoamentos indígenas e missões (Vila Bela da Rainha e Vila Bela da Imperatriz), consolidando-se no ciclo do cacau e da exportação de produtos extrativista e ponto de referência comercia na região. Em 30 de outubro de 1880, pela Lei Provincial nº 499, foi elevado à categoria de cidade com o nome Parintins, em homenagem ao povo indígena que habitou e percorreu a região.
Hoje, Parintins é mundialmente famosa pelo Festival Folclórico do Boi-Bumbá. Lendas como a do Gigante Juma — protetor da floresta que vive na Serra de Parintins e ligado aos antigos guerreiros — mantêm viva essa herança indígena, misturando memória ancestral, resistência e orgulho amazonense.
A história da Serra de Parintins mostra como um nome indígena, nascido em meio a conflitos e migrações, atravessou séculos e se transformou em símbolo de identidade de toda uma cidade e região.
Sobre o autor
• Prof. Me. Do Sistema Municipal e Estadual de Educação.
• Membro Instituto Histórico e Geográfico de Parintins (IGHP).
Fontes principais:
Gaspar de Carvajal (1542),
Francisco Xavier de Mendonça Furtado (1750–1759),
Lourenço da Silva Araújo e Amazonas (1852),
Curt Nimuendajú (1924),
ISA – Instituto Socioambiental / Povos Indígenas no Brasil (pib.socioambiental.org).
Tags:
Opinião




