Autor: Jenner Reis Carneiro
Resumo
O aumento das queimadas na região do oeste do Pará, especialmente no município de Juruti, tem provocado consequências ambientais que ultrapassam os limites territoriais dos municípios onde ocorrem os incêndios. No município de Parintins, situado no extremo leste do Amazonas, a presença recorrente de fumaça na atmosfera tem chamado a atenção da população, sobretudo durante os períodos de estiagem. Este estudo apresenta uma análise geográfica e climática do possível transporte atmosférico da fumaça produzida pelas queimadas no oeste paraense em direção ao território amazonense, considerando a proximidade entre Juruti e Parintins, a circulação regional dos ventos, as condições de estabilidade atmosférica e a ausência de precipitações. Busca-se compreender como os processos atmosféricos contribuem para o deslocamento de partículas poluentes e para a deterioração da qualidade do ar em Parintins. A análise considera informações de monitoramento ambiental, dados de qualidade do ar e conhecimentos sobre a dinâmica climática amazônica. Os elementos levantados indicam que as queimadas no oeste do Pará constituem uma importante fonte potencial de poluição atmosférica para o leste do Amazonas, demonstrando que os impactos ambientais do fogo não respeitam as divisões político-administrativas.
Palavras-chave: Queimadas; fumaça; transporte atmosférico; Juruti; Parintins; qualidade do ar; Amazônia.
1. Introdução
As queimadas representam um dos principais problemas ambientais da Amazônia, especialmente durante os períodos de estiagem, quando a redução das chuvas favorece a propagação do fogo em áreas de vegetação, propriedades rurais, roçados e pastagens.
Na região do Baixo Amazonas, a ocorrência de incêndios florestais e queimadas agrícolas assume uma dimensão territorial ainda mais significativa, considerando a proximidade entre os municípios e a dinâmica de circulação das massas de ar.
Nesse contexto, destaca-se a relação geográfica entre Juruti, no oeste do Pará, e Parintins, no extremo leste do Amazonas. Embora pertençam a estados diferentes, os dois municípios estão inseridos em uma mesma região de influência climática e atmosférica.
A proximidade territorial permite que a fumaça produzida pelas queimadas em Juruti e em outras localidades paraenses seja transportada em direção a Parintins, dependendo das condições de circulação dos ventos.
Durante os períodos de estiagem, a concentração de partículas suspensas na atmosfera pode comprometer significativamente a qualidade do ar, provocando desconforto respiratório, redução da visibilidade e riscos à saúde pública.
Diante dessa realidade, torna-se necessário compreender o fenômeno não apenas como um problema local, mas como uma questão ambiental regional, cuja dinâmica envolve diferentes municípios e unidades da Federação.
2. Caracterização geográfica da área de estudo
O município de Juruti está localizado na região oeste do estado do Pará, às margens do rio Amazonas. Parintins, por sua vez, situa-se no extremo leste do estado do Amazonas, também na região do Baixo Amazonas.
A distância relativamente pequena entre as sedes municipais, estimada em aproximadamente 35 a 40 quilômetros em linha reta, constitui um elemento importante para compreender a possibilidade de transporte de fumaça entre os dois territórios.
Essa configuração geográfica demonstra que as emissões atmosféricas produzidas em Juruti podem alcançar Parintins sem encontrar obstáculos geográficos significativos.
É importante destacar que o deslocamento da fumaça não depende necessariamente do curso do rio Amazonas. O transporte ocorre principalmente pela circulação atmosférica, que pode conduzir partículas e gases por diferentes trajetórias e altitudes.
Portanto, a posição geográfica de Parintins, próxima às áreas de queimadas do oeste paraense, torna o município particularmente suscetível aos efeitos da poluição atmosférica regional.
3. As queimadas no oeste do Pará e suas consequências ambientais
O oeste paraense apresenta extensas áreas de vegetação natural, propriedades rurais e comunidades que desenvolvem atividades agrícolas. Durante a estiagem, o uso do fogo para limpeza de terrenos e manejo de áreas agrícolas pode favorecer a ocorrência de incêndios de maiores proporções.
No município de Juruti, os registros de incêndios florestais e queimadas em comunidades rurais demonstram a dimensão do problema.
Informações divulgadas pela administração municipal em outubro de 2026 apontaram o agravamento das ocorrências, com impactos sobre dezenas de comunidades e também sobre a sede urbana.
Além de Juruti, municípios como Santarém, Óbidos, Alenquer, Monte Alegre e Prainha também integram uma região onde a ocorrência de queimadas pode contribuir para a emissão de grandes quantidades de fumaça.
A combustão da vegetação libera gases e partículas, entre elas o material particulado fino, conhecido como PM2,5, capaz de permanecer suspenso na atmosfera e ser transportado por longas distâncias.
Dessa maneira, os efeitos das queimadas ultrapassam os locais onde o fogo se origina, alcançando áreas urbanas, comunidades rurais e outros municípios.
4. A dinâmica atmosférica e o transporte da fumaça para Parintins
A compreensão do deslocamento da fumaça entre Juruti e Parintins exige considerar os mecanismos de circulação atmosférica que atuam na Amazônia.
A região sofre influência dos ventos alísios, predominantemente associados aos setores leste e nordeste, que transportam massas de ar em direção ao interior do continente.
Quando a circulação apresenta componente favorável ao deslocamento de leste para oeste, pode ocorrer o transporte da fumaça produzida no oeste do Pará em direção ao leste do Amazonas.
O processo acontece por meio de diferentes etapas:
1. As queimadas produzem gases e partículas poluentes.
2. O calor liberado pela combustão provoca a ascensão do ar aquecido, transportando a fumaça para diferentes níveis da atmosfera.
3. Os ventos atuam sobre essa massa de ar, deslocando-a horizontalmente.
4. Dependendo da direção e da velocidade dos ventos, a fumaça pode alcançar o território de Parintins.
5. Ao chegar à região, as partículas podem permanecer suspensas e contribuir para a deterioração da qualidade do ar.
É importante considerar que os ventos próximos à superfície nem sempre apresentam a mesma direção daqueles que atuam em maiores altitudes. Por isso, a análise do transporte atmosférico deve considerar diferentes níveis da atmosfera.
Também não se pode afirmar que a fumaça percorre permanentemente a trajetória Juruti–Parintins. A direção do transporte depende das condições meteorológicas de cada período.
5. A influência das condições climáticas na concentração da fumaça
Além do transporte atmosférico, as condições climáticas locais desempenham papel fundamental na concentração dos poluentes em Parintins.
Três fatores merecem destaque.
5.1. Estiagem e redução das precipitações
A ausência prolongada de chuvas favorece a permanência de partículas suspensas na atmosfera.
A precipitação contribui para a remoção de parte dos poluentes, por meio do processo conhecido como deposição úmida.
Quando as chuvas diminuem, a atmosfera perde parte dessa capacidade natural de limpeza, permitindo que a fumaça permaneça por mais tempo no ambiente.
5.2. Estabilidade atmosférica
Durante a noite e nas primeiras horas da manhã, o resfriamento da superfície pode favorecer a formação de condições de estabilidade atmosférica.
Nessas circunstâncias, a mistura vertical do ar diminui, dificultando a dispersão dos poluentes e favorecendo sua concentração próxima à superfície.
Esse processo ajuda a explicar por que determinados dias começam com grande quantidade de fumaça e redução da visibilidade.
5.3. Camada de mistura atmosférica
A camada de mistura corresponde à porção da atmosfera próxima à superfície na qual ocorre maior movimentação e mistura do ar.
Quando essa camada apresenta pequena espessura, os poluentes ficam concentrados em um volume atmosférico menor.
Por outro lado, quando existe maior circulação vertical, a dispersão pode ser favorecida.
Esses mecanismos demonstram que a intensidade da fumaça percebida em Parintins não depende exclusivamente da quantidade de queimadas, mas também das condições meteorológicas responsáveis pelo transporte e pela dispersão dos poluentes.
6. Evidências de transporte atmosférico entre Juruti e Parintins
O monitoramento ambiental oferece elementos importantes para compreender a relação entre as queimadas do oeste paraense e a poluição atmosférica observada no município de Parintins.
Entre as ferramentas disponíveis, destaca-se o sistema QualiAr, desenvolvido no âmbito da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), que apresenta informações sobre a qualidade do ar e estimativas de transporte de fumaça.
Em uma consulta realizada em 29 de outubro de 2026, o sistema apresentou Juruti como principal município de origem estimada da fumaça que influenciava Parintins, com participação aproximada de 56% a 60% nas previsões apresentadas.
Na mesma consulta, foi indicada circulação atmosférica de leste, com velocidade estimada de 6,2 metros por segundo.
Essas informações são particularmente relevantes porque demonstram a coerência entre a localização das queimadas, a direção dos ventos e a possibilidade de transporte da fumaça para Parintins.
Outro elemento importante foi a identificação, em boletim de monitoramento ambiental de 5 de novembro de 2026, de um evento persistente de incêndio denominado Juruti–Parintins, com registro de atividade na região do assentamento Vila Amazônia.
É necessário esclarecer que os modelos de previsão apresentam estimativas de contribuição das fontes emissoras, e não uma identificação laboratorial individual de cada partícula encontrada na atmosfera.
Ainda assim, quando analisadas em conjunto, essas informações constituem evidências relevantes para a compreensão do fenômeno.
7. Os impactos na qualidade do ar e na população de Parintins
A presença de fumaça na atmosfera representa um problema ambiental e de saúde pública.
O material particulado fino, especialmente o PM2,5, merece atenção por apresentar dimensões reduzidas, permitindo sua penetração profunda no sistema respiratório.
A exposição a concentrações elevadas pode provocar irritação nos olhos, nariz e garganta, tosse, dificuldades respiratórias e agravamento de doenças respiratórias e cardiovasculares.
Em 7 de novembro de 2026, informações divulgadas pela imprensa regional apontaram valores elevados de material particulado em Parintins, incluindo registros horários de até 1.620 µg/m³ e média de 24 horas de 241 µg/m³.
Esses valores indicam uma situação preocupante de qualidade do ar e reforçam a necessidade de acompanhamento contínuo das condições atmosféricas.
A situação exige atenção especial às crianças, aos idosos, às pessoas com doenças respiratórias e aos trabalhadores que desenvolvem atividades ao ar livre.
Além dos efeitos sobre a saúde humana, a fumaça compromete a visibilidade, interfere nas atividades cotidianas e evidencia a dimensão regional dos impactos ambientais provocados pelas queimadas.
8. A necessidade de uma abordagem ambiental regional
A análise da relação entre Juruti e Parintins demonstra que os problemas ambientais associados às queimadas não podem ser tratados exclusivamente dentro dos limites administrativos de cada município.
A atmosfera constitui um sistema dinâmico e integrado. Dessa forma, os poluentes emitidos em determinado território podem alcançar outras localidades, produzindo consequências que exigem cooperação entre diferentes administrações públicas.
Nesse sentido, torna-se necessário fortalecer o monitoramento dos focos de calor, ampliar a fiscalização ambiental, desenvolver políticas de prevenção às queimadas e estabelecer estratégias conjuntas de enfrentamento da poluição atmosférica.
Para Parintins, é especialmente importante acompanhar as condições meteorológicas do oeste do Pará, considerando a proximidade territorial e a possibilidade de transporte de fumaça.
A integração de dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), da Universidade Federal do Amazonas, do Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam) e dos órgãos ambientais estaduais pode contribuir para a construção de um sistema regional de alerta e prevenção.
9. Considerações finais
A análise geográfica e climática apresentada permite compreender que a fumaça das queimadas registradas no oeste do Pará pode alcançar o município de Parintins por meio dos mecanismos de circulação atmosférica que atuam na região do Baixo Amazonas.
A proximidade entre Juruti e Parintins, associada à ocorrência de incêndios florestais, à redução das precipitações e à circulação regional dos ventos, constitui um conjunto de fatores que favorece o transporte de partículas poluentes entre os dois territórios.
Os registros de monitoramento ambiental e as estimativas do sistema QualiAr reforçam a importância de investigar essa relação, especialmente diante dos episódios de intensa concentração de fumaça observados em Parintins.
Entretanto, é necessário reconhecer que a poluição atmosférica pode resultar da combinação de diferentes fontes emissoras, incluindo queimadas no próprio município, em localidades vizinhas e em outras regiões do oeste paraense.
Assim, a compreensão da problemática exige uma abordagem integrada, que considere tanto as características geográficas quanto os processos climáticos e meteorológicos responsáveis pelo deslocamento dos poluentes.
Mais do que um problema localizado, a fumaça que atinge Parintins evidencia que os impactos das queimadas na Amazônia ultrapassam fronteiras estaduais e municipais, transformando a poluição atmosférica em uma questão ambiental de dimensão regional.
Portanto, combater as queimadas no oeste do Pará também significa proteger a qualidade do ar e a saúde da população do leste do Amazonas.
10. Referências e fontes de consulta
INSTITUTO NACIONAL DE PESQUISAS ESPACIAIS (INPE). Programa Queimadas. Monitoramento de focos de calor e incêndios na vegetação. Disponível em: https://terrabrasilis.dpi.inpe.br/queimadas/ .
UNIVERSIDADE FEDERAL DO AMAZONAS (UFAM). Sistema QualiAr. Monitoramento e previsão da qualidade do ar na Amazônia. Plataforma de acompanhamento da qualidade atmosférica.
CENTRO GESTOR E OPERACIONAL DO SISTEMA DE PROTEÇÃO DA AMAZÔNIA (CENSIPAM). Monitoramento ambiental e acompanhamento de eventos de incêndios na Amazônia.
MINISTÉRIO PÚBLICO DE CONTAS DO ESTADO DO AMAZONAS. Boletim de monitoramento ambiental. Novembro de 2026.
PREFEITURA MUNICIPAL DE JURUTI. Informações sobre queimadas, incêndios florestais e comunidades atingidas. Outubro de 2026.
RIOS DE NOTÍCIAS. Informações sobre a qualidade do ar e a presença de fumaça em Parintins.
SOBRE O AUTOR
Jenner Carneiro | Professor Me. do Sistema Municipal e Estadual de Educação, ativista social e político, historiador autodidata e membro efetivo do Instituto Geográfico e Histórico de Parintins (IGHP), além de mestrando em Recursos Hídricos (ProfÁgua - UEA).
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Opinião



