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| Trecho do rio Mamuru | Foto: Agência Pará |
Por: Jenner Carneiro
Hoje falaremos de um rio intricado nas vastas redes hidrográficas da Amazônia, poucos nomes carregam tanta força e mistério quanto o Rio Mamuru. Suas águas, que serpenteiam por florestas de terra firme e igapós tem sua nascente no oeste do Estado do Pará, antes de desaguar no complexo do Lago do Uaicurapá, na microrregião de Parintins (Amazonas). Esse rio conta uma história que começa muito antes da chegada dos europeus.
O nome "Mamuru" (ou Mamurú) é um eco vivo da sabedoria indígena, um hidrônimo que revela a profunda observação que os povos originários tinham sobre o ambiente e seus recursos.
A etimologia mais plausível e coerente aponta para a língua Tupi. O termo deriva de Mamu'ri ou Mamuri, que designa um peixe de grande porte pertencente à família dos caracídeos — popularmente conhecido como matrinxã ou simplesmente Mamuri (Brycon spp.).
Assim, "Mamuru" pode ser traduzido como "Rio do Mamuri" ou "Rio dos peixes grandes". Essa interpretação segue um padrão clássico da toponímia amazônica, onde rios eram frequentemente nomeados conforme a fauna abundante ou sua importância cultural e alimentar para as comunidades.
Diferente de rios batizados por sua cor, largura ou velocidade, o Mamuru foi reconhecido e batizado pela generosidade de suas águas. Para os povos indígenas que habitavam suas margens — especialmente os antepassados dos Sateré-Mawé —, um rio rico em peixes grandes representava não apenas alimento, mas também vida, troca, ritual e sustento cultural. Essa origem etimológica contrasta com hidrônimos puramente descritivos, celebrando aqui a abundância ictiológica que tornava o rio um lugar especial e vital.
Embora o nome tenha raízes profundas na tradição oral indígena, sua primeira documentação escrita mais clara surge no século XIX. O Cônego Francisco Bernardino de Souza, em sua obra clássica Lembranças e curiosidades do valle do Amazonas (1873), registra o rio de forma explícita ao descrever a geografia da região de Vila Bela da Imperatriz (atual Parintins). Bernardino menciona o Mamuru como um curso d'água importante do município, associando suas margens à presença de mocambos, especialmente na margem direita, acima de sua foz.
Essa referência do século XIX demonstra que o hidrônimo indígena já estava consolidado na cartografia regional, resistindo à ocupação luso-brasileira. Nos relatos jesuítas dos séculos XVII e XVIII, como os de João Felipe Bettendorff, não há menção direta ao nome "Mamuru", sendo a área conhecida mais pelos nomes das aldeias indígenas (como Tupinambarana) ou dos grupos que a habitavam.
Atualmente, o Rio Mamuru enfrenta grave ameaça. Localizado na fronteira entre os estados do Amazonas e do Pará, o rio vem sofrendo forte pressão da exploração madeireira ilegal. Comunidades indígenas Sateré-Mawé e ribeirinhas denunciam a passagem constante de dezenas de balsas carregadas de toras de madeira, muitas oriundas de áreas protegidas. Em março de 2024, a Operação Mamuru, deflagrada pela Polícia Federal, IBAMA, ICMBio, Marinha do Brasil e FUNAI, foi lançada justamente para combater esse esquema, que incluía o uso de licenças ambientais emitidas pelo Estado do Pará para legalizar madeira extraída irregularmente no Amazonas.
A operação atendeu a denúncias do Coletivo em Defesa do Rio Mamuru e da Comissão Pastoral da Terra (CPT). Infelizmente, aquela abundância de peixes grandes que originou o nome do rio corre sério risco de desaparecer caso a devastação e a extração ilegal continuem sem um controle efetivo e permanente.
Operação Mamuru
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| Foto: Portal Único |
Em síntese, a origem do hidrônimo Rio Mamuru revela uma sabedoria ancestral que via o rio não como simples curso d'água, mas como um ser vivo, generoso e marcado pela presença dos grandes peixes que garantiam a sobrevivência e o equilíbrio da floresta. Preservar esse rio é, portanto, preservar tanto sua memória cultural quanto sua vitalidade ecológica.
Fontes:
SOUZA, Francisco Bernardino de. Lembranças e curiosidades do Valle do Amazonas. Pará: Typographia do Futuro, 1873.
NAVARRO, Eduardo de Almeida. Dicionário de Tupi Antigo. São Paulo: Global, 2013.
POLÍCIA FEDERAL. Operação Mamuru combate extração ilegal de madeira na região de Parintins (AM), 2024.
Sobre o autor
Prof. Me. do Sistema Municipal e Estadual de Educação.
Membro efetivo do Instituto Geográfico e Histórico de Parintins (IGHP)
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Opinião





