ARTIGO | O Topônimo “Ilha Tupinabarana”: Origem, Migração e Distinção de Parintins

Foto: cidade de Parintins/Tupinabarana

Por: Jenner Carneiro


 Ao contrário do que se pensa comumente, a cidade de Parintins (conhecida historicamente como Ilha de las Picotas, nome dado por frei Gaspar de Carvajal em 1542 devido às cabeças de inimigos expostas em estacas) e as Ilhas Tupinabaranas não são exatamente a mesma entidade geográfica ou histórica. 

Antigo mapa da região | Fonte: PPT Ressurgimento do povo Maraguá

Parintins localiza-se em uma das maiores ilha do arquipélago, mas o termo Tupinabaranas designa um conjunto maior de ilhas e terras ribeirinhas que formam um complexo arquipélago fluvial (algo parecido como as ilhas de Marajó).

O termo Tupinabarana (ou Tupinambarana) é um topônimo etnográfico que se refere tanto ao antigo povo indígena que habitou a região quanto ao espaço geográfico por eles ocupado. Deriva do tupi Tupinambá + rana. 

O sufixo -rana significa “semelhante a”, “parecido com”, “falso” ou “não verdadeiro”. Portanto, Tupinabarana pode ser traduzido como “os semelhantes aos Tupinambá”,  — indicando um grupo derivado, migrante ou aparentado, mas distinto dos Tupinambá originais do litoral.

Origem Geográfica das Ilhas Tupinabaranas
A região das Ilhas Tupinabaranas que, antes, era considerado como sendo uma única ilha, tem início no Rio Madeira, a partir de um braço ou furo que deságua no Paraná do Ramos (antigamente referido como Paraná dos Tupinambás). Abrange a margem esquerda do Paraná do Ramos, além de outros furos interligados, como o Urariá (na margem direita), integrando-se ao sistema do rio Amazonas. Trata-se de um vasto arquipélago com múltiplas ilhas (hoje estimado em mais de 11.800 km²), rodeado pelos rios Amazonas, Madeira, Ramos e Abacaxis. O território atual está dividido entre municípios como Parintins, Barreirinha, Boa Vista do Ramos e Urucurituba.

A Migração dos Tupinambá para a Amazônia

A primeira referência clara a esses migrantes na Amazônia vem do jesuíta Cristóbal de Acuña, que acompanhou a expedição de Pedro Teixeira (1639). Em Nuevo descubrimiento del gran río de las Amazonas, Acuña descreve:
Vinte e oito léguas da boca deste rio [Madeira], caminhando sempre pela mesma banda do sul, está uma formosa ilha, que tem sessenta léguas de comprimento [...] povoada toda dos valentes Tupinambás, gente que das conquistas do Brasil, em terras de Pernambuco, saíram derrotados muitos anos há, fugindo do rigor com que os portugueses lhes iam sujeitando. Saíram em tão grande número que, despovoando ao mesmo tempo oitenta e quatro aldeias [...], não ficou criatura que não trouxessem em sua companhia.

Acuña destaca que falavam a “língua geral do Brasil” (Nhengatu) e que se dividiram ao longo da longa migração de centenas de léguas. Essa é uma das primeiras referências documentadas aos Tupinambaranas na região do Madeira/Amazonas.

Os Tupinambá constituíam um povo guerreiro, numeroso e expansionista do tronco tupi, que dominava grandes extensões do litoral brasileiro no século XVI. Pressionados pela colonização portuguesa (especialmente após conflitos em Pernambuco e Bahia), vários grupos migraram para o interior, percorrendo centenas de léguas até chegar à Amazônia.
 
Citações do Século XVII e Definição do Espaço 

No século XVII, a região já era conhecida como habitat desses grupos. Jesuítas como João Felipe Bettendorff fundaram missões na área (ex.: Missão de São Miguel de Tupinambarana, por volta de 1669). 
S.erafim Leite registra esses aldeamentos em sua obra clássica sobre a Companhia de Jesus. 

Simão Assayag, em sua obra sobre o Boi-Bumbá, aborda a memória cultural local. O Dicionário de Lourenço da Silva Araújo e Amazonas (1852) também serve de base importante para a delimitação geográfica das antigas Ilhas Tupinabaranas. 

Distinção entre Parintins e Tupinabaranas
Ilhas Tupinabaranas: Conjunto arquipelágico amplo, com ocupação indígena antiga (incluindo contatos com Sateré-Mawé) e forte presença de grupos tupinambá migrados no século XVII.

Parintins:  Surgiu no lugar de fundação da Fazenda Tupinabarana de propriedade do capitão José Pedro Cordovil, que posteriormente foi doado a rainha D. Maria I, que a transformou em Missão, Vila Nova da Rainha. Ficando o Frei José Álvares das Chagas como seu primeiro missionário fixo, isso por volta do início do século XIX. O nome Parintins vai ser dada em 1880, quando da elevação do lugar a categoria de cidade.

Portanto essa herança de Ilha Tupinabarana, vem desde o início de sua fundação. O que ao nosso entendimento foi uma homenagem de Cordovil a esse povo que sabidamente habitava essa região. Então é bom ficar atento que nem sempre o termo ilha Tupinabarana estará se referindo a cidade de Parintins.

Sobre o autor 


Prof. Me. Do Sistema Municipal e Estadual de Educação.
Membro Efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de Parintins (GHP).
E- mail: jennercarneiro01@hotmail.com

Referências:
ACUÑA, Cristóbal de. Nuevo descubrimiento del gran rio de las Amazonas. Madrid: Imprenta del Reyno, 1641.

AMAZONAS, Lourenço da Silva Araújo e. Diccionario topographico, historico, descriptivo da comarca do Alto-Amazonas. Recife: Typ. Commercial de Meira Henriques, 1852. (Edição fac-similar: Manaus: Grafima, 1984)

.ASSAYAG, Simão. Boi-Bumbá: festas, andanças, luz e pajelanças. Rio de Janeiro: Funarte, 1995.

CARVAJAL, Gaspar de. Relación del nuevo descubrimiento del famoso río Grande que descubrió por muy gran ventura el Capitán Francisco de Orellana. Edição de José Toribio Medina. [S.l.: s.n.], 1894. (Edições modernas disponíveis).

LEITE, Serafim. História da Companhia de Jesus no Brasil. Lisboa/Rio de Janeiro: Livraria Portugália/Civilização Brasileira, 1938-1950. 10 v.

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