A Prefeitura de Parintins, por meio da Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa (Secult), encerrou com chave de ouro, na noite deste domingo (14), as 59ª Festividades Folclóricas de Quadrilhas, Danças e Bois Mirins de Parintins. O evento contou com a parceria do Governo do Amazonas.
O Anfiteatro Sila Marçal foi o palco de um espetáculo inesquecível, onde as três associações folclóricas mirins emocionaram o público e lotaram as arquibancadas. Para além de uma brincadeira de criança, os Bois Mirins mostraram criatividade, consciência social, inclusão e paixão popular, exaltando a história, as tradições e a riqueza cultural da Amazônia.
1º - Mineirinho abre a noite celebrando seu Jubileu de Ouro
Abrindo a última noite de espetáculo, o Boi-Bumbá Mineirinho celebrou uma marca histórica: meio século de existência. Sob o tema "Mineirinho, Meio Século de História e Tradição", o boi preto do Centro da Ilha e de Nossa Senhora do Carmo reconstruiu na arena a sua própria trajetória, nascida em 12 de junho de 1976 do amor de Dona Leonor (torcedora do Caprichoso) e de seu esposo Seo Lelé (torcedor do Garantido).
O espetáculo do Mineirinho dividiu-se em três atos grandiosos:
Celebração Folclórica: a apresentação iniciou com um momento cênico impactante, onde um módulo alegórico central em formato de catedral revelou os itens oficiais. O Apresentador (homenageando Jaime Ferreira), o Levantador de Toadas e o Amo do Boi (representando Seo Lelé) conduziram a evolução. O grande destaque foi a Sinhazinha da Fazenda, representando o Jubileu de Ouro em homenagem à eterna Rainha do Ouro, Grayce Silva.
Exaltação Cabocla: o cenário se transformou para encenar a lenda da Yara, a protetora dos lagos, cuja evolução culminou na revelação da Cunhã-Poranga como a Encantaria das Águas.
Momento Indígena: o boi trouxe o imponente ritual dos Apinajés e sua batalha contra os Cupendiepes (o povo morcego), finalizando com a apoteose do Pajé, que representou o Sol.
2º - Estrelinha encanta a arena com o verdejar da "Amazônia Criança"
Dando continuidade às apresentações, o Boi-Bumbá Mirim Estrelinha transbordou sensibilidade, afeto e o autêntico espírito de comunidade sob o tema "Amazônia Criança: Imaginário da Vida". Defendendo as cores verde e branco e ostentando sua tradicional estrela de oito pontas na testa do boizinho, a associação emocionou os torcedores ao transformar a arena em um grande terreiro de infâncias plurais.
Os principais destaques do Estrelinha na noite foram:
Prólogo de Devoção e Respeito: fiel às suas raízes fundadas na promessa de Hudson Carmo na década de 1980, o Estrelinha abriu sua apresentação em frente à simbólica representação da Igreja de São Benedito. Em um manifesto contra o preconceito e a intolerância, o boizinho exaltou o "santo preto", pedindo bênçãos para o espetáculo e ensinando a pluralidade religiosa desde a infância.
O Menestrel da Fazenda: o Amo do Boi, Henrique Gabriel — descrito como o mais experiente do festival —, deu um show de carisma e improviso. O curumim emocionou o anfiteatro ao cantar "Meu Divino Salvador", unindo a imponência do dono da fazenda à doçura da devoção infantil.
Ritmo e Consciência Ambiental: a Batucada do Estrelinha, sob a regência de Bruno Souza e Elian Rugman, fez o chão do anfiteatro tremer. Com as mãos tecendo o ritmo, os batuqueiros mirins demonstraram uma forte conexão com o meio ambiente, utilizando materiais que remetiam às palhas e aos saberes tradicionais passados de geração em geração.
Exemplo de Equidade: o Estrelinha consolidou-se como o "nascedouro da inclusão" ao integrar perfeitamente crianças neurotípicas (TEA, TDAH, dislexia), cadeirantes, quilombolas e ribeirinhas em todas as alas e itens da arena, provando que na arena das crianças não existem barreiras para a felicidade.
3º - Tupi fecha o festival com manifesto social e as "Raízes do Meu Lugar"
Encerrando a noite de disputas, o Boi Bumbá Mirim Tupi coloriu a arena de laranja e branco com o tema "Raízes do Meu Lugar". Com uma proposta embasada em fundamentação teórica, citando pensadores como Paulo Freire e Darcy Ribeiro, a associação utilizou o anfiteatro como um poderoso instrumento de pedagogia cultural e defesa dos direitos da infância.
A apresentação do Tupi foi um show de criatividade e engajamento dividido em:
Bloco Musical e Escola de Artes: o espetáculo começou com a sonorização da flautista Sofia da Silva Prata (9 anos) e a estreia do pequeno Nícolas Colares Garcia (6 anos) como Apresentador. O Levantador Isaac Pereira e o Amo Rayan Guilherme comandaram o ritmo da Batucada de Guerra.
Exaltação Folclórica: o boi homenageou seus fundadores e o eterno tripa Markinho Azevedo, por meio de sua Escola de Artes. A Porta-Estandarte, Vitória Siderval (9 anos), surpreendeu ao trazer referências ao Frevo nordestino, simbolizando o intercâmbio cultural. O bloco de Vestidos Regionais deu um show de sustentabilidade, utilizando materiais recicláveis como copos descartáveis e garrafas PET.
Lenda Jacurutu e Cunhã-Poranga: o momento mais marcante foi a encenação da lenda de Jacurutu, o pesadelo da noite. O Tupi usou a figura do cacique antropófago que devorava crianças para fazer um manifesto real contra o abuso infantil e a violência. A noite seguiu com a evolução da Cunhã-Poranga, Layssa Gabriele (13 anos), que surgiu de uma enorme coruja. Outro momento singular foi a apresentação da Rainha do Folclore, Ayla Beatrice (07 anos), que deu um show de bailado e levantou a arquibancada.
Resistência Indígena e Inclusão: o ritual Muraída trouxe uma forte crítica social contra o preconceito histórico sofrido pelo povo Mura. O Pajé José Romano (7 anos) finalizou com uma indumentária impressionante que trazia um crânio de jacaré. O espetáculo do Tupi também foi um espaço de inclusão, a apresentação contou com a participação de crianças com TEA e TDAH na Batucada e na Vaqueirada.
Com o encerramento das apresentações, a Prefeitura de Parintins e o Governo do Amazonas celebram o sucesso absoluto de mais uma edição das Festividades Folclóricas. Ao dar voz e espaço aos curumins e cunhantãs, o município reafirma seu compromisso com a valorização cultural, garantindo que o futuro do maior patrimônio de Parintins tenha continuidade.
Texto: Cristiane Barbosa/ SECOM
Fotos: Sidney Simas/ SECOM
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