Em uma visita carregada de simbolismo histórico, o líder indígena Jecinaldo Sateré foi recebido pelo presidente do Boi Caprichoso, Rossy Amoedo, e pela diretoria do bumbá, nesta quinta-feira (18), na sede do Conselho de Artes. O encontro transcendeu o protocolo formal e se revestiu de um peso ancestral, tecido com os fios do respeito à cultura dos povos originários.
Jecinaldo, que hoje coordena o Distrito Sanitário Especial Indígena de Parintins (DSEI Parintins) e carrega uma trajetória de luta em defesa dos povos da floresta, ressaltou a visibilidade que o Caprichoso vem conferindo às causas indígenas ao longo dos últimos anos.
“Nós, enquanto povos originários, nos sentimos parte dessa grande plataforma que defende a vida, que defende o maior bioma do mundo, que é a Amazônia. O Caprichoso se confunde com a luta dos povos indígenas, mas, ao mesmo tempo, caminha lado a lado conosco pela defesa da vida, da Amazônia, da biodiversidade e de seus povos. Estar aqui, no galpão do Caprichoso, é dizer a toda a nação azul e branca que nós também nos sentimos parte essencial dessa luta”, afirmou o líder indígena.
Um dos pontos altos da visita foi o diálogo sobre a luta contra o Marco Temporal, pauta que ganhou força e notoriedade no encontro. Jecinaldo, que esteve nas trincheiras de Brasília como uma das vozes dos povos da região Norte, destacou a presença do boi-bumbá nessa batalha.
“O Caprichoso esteve ao nosso lado na luta contra o Marco Temporal, contra a lei que tentava aniquilar os direitos dos povos indígenas. O Caprichoso nos estendeu as mãos. Ficamos imensamente felizes por terem abraçado a causa indígena”, sublinhou Jecinaldo.
Para o presidente do Caprichoso, o bumbá é mais do que espetáculo é eco para as vozes silenciadas. “Nosso Conselho sempre tratou com respeito e dedicação a luta dos povos indígenas. Levamos muito a sério a brincadeira do boi-bumbá, mas também abraçamos a luta daqueles que mais precisam e que, muitas vezes, não têm voz. Nesses momentos, nos tornamos, na arena, a voz desses povos”, declarou Rossy.
Durante a visita, Jecinaldo mostrou-se entusiasmado com a equipe do Conselho de Artes do Caprichoso, especialmente no que diz respeito à representatividade. Um nome que lhe chamou a atenção foi o da indígena Gilvana Borari. Para Sateré, ter um indígena participando da criação do enredo do espetáculo é a garantia de que a representatividade se aproxima, com fidelidade, da realidade vivida pelos povos da floresta.
Gilvana, que também ocupa o item de tuxaua do Caprichoso, destacou a profundidade dessa aproximação com o boi-bumbá. “O Caprichoso abraçou não apenas o espetáculo. Ele deixou de ser somente folclórico e passou a ser pertencimento do povo amazônico. Estar neste lugar, viver os compositores falando de nossas histórias, é muito diferente de contar lendo um livro”, disse a conselheira.
Ao longo da visita, Jecinaldo, sua esposa Rita Andrade, o filho Weita Sateré e amigos acompanharam de perto os preparativos finais do Caprichoso para o Festival Folclórico de Parintins e conheceram detalhes artísticos do boi. Em um momento de troca profunda, o líder indígena compartilhou com artistas e diretores relatos sobre o tradicional “Ritual da Tucandeira”, prática sagrada do povo Sateré-Mawé. Como gesto simbólico de aliança, ele e sua família presentearam o presidente Rossy com um cordão produzido pelos povos originários, acolhido com reverência pelo presidente e por todo o Conselho de Artes. Em reciprocidade, Rossy, em nome da diretoria do Caprichoso, presenteou o líder indígena e seus familiares com produtos oficiais do touro azul e branco, selando, com esse ato, o compromisso que une arte, ancestralidade e resistência.
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